No texto anterior, falamos sobre para que servem as córneas doadas. Neste, vamos explorar uma das técnicas utilizadas: o transplante lamelar anterior! Esta é uma técnica cirúrgica moderna de transplante de córnea que substitui seletivamente apenas as camadas anteriores (externas) do tecido corneano, preservando as camadas mais profundas e saudáveis do paciente.
Diferentemente do transplante tradicional de córnea em espessura total (conhecido como ceratoplastia penetrante), que substitui toda a córnea, o transplante lamelar anterior remove e substitui apenas as porções doentes, mantendo intactas a membrana de Descemet e a camada de células endoteliais do receptor. .
Como a técnica se classifica?
Dentro do transplante lamelar anterior, existem duas variações principais:
- Ceratoplastia Lamelar Anterior Superficial (SALK) – a técnica consiste na substituição do estroma corneano anterior por outro saudável de espessura semelhante e epitélio intacto . Remove aproximadamente 30 a 50% da espessura anterior da córnea, sendo indicada para cicatrizes superficiais e degenerações que não atingem as camadas mais profundas. Pouco realizada pelos resultados, em geral ruins, em relação à acuidade visual.
- Ceratoplastia Lamelar Anterior Profunda (DALK) – remove toda a espessura do estroma corneano até expor a membrana de Descemet, substituindo praticamente todas as camadas anteriores, mas preservando a membrana de Descemet e o endotélio do paciente.

Quais doenças podem ser tratadas?
O transplante lamelar anterior é indicado especificamente para pacientes cujo endotélio da córnea (camada mais interna) é saudável, mas as camadas anteriores apresentam problemas. As principais indicações incluem:
Ceratocone – doença degenerativa que afina e deforma a córnea (indicação mais comum);
Cicatrizes estromais – decorrentes de infecções, traumas ou queimaduras que não atingem o endotélio;
Distrofias estromais da córnea – como distrofia granular e lattice;
Ectasias pós-cirúrgicas – como, por exemplo, após cirurgia refrativa a laser.
Quais são as principais vantagens?
O transplante lamelar anterior oferece benefícios significativos em comparação com o transplante tradicional em espessura total:
- Menor risco de rejeição – como o endotélio (camada mais imunogênica) é preservado do próprio paciente, a probabilidade de rejeição do enxerto é substancialmente reduzida. Portanto é uma técnica obrigatória em crianças e adolescentes que possuem risco aumentado de rejeição em transplantes.
- Globo ocular mais resistente – por não ser uma incisão que atravessa toda a espessura da córnea, o olho mantém maior integridade estrutural, reduzindo o risco de ruptura em caso de traumas futuros.
- Menor dependência de corticoides – os medicamentos anti-rejeição podem ser descontinuados mais precocemente, reduzindo o risco de catarata e glaucoma secundários.
- Maior durabilidade – por preservar o endotélio do receptor, a córnea dura muito mais tempo. Transplantes penetrantes duram em média 17 anos, enquanto o DALK dura em média 49 anos, segundo os estudos.
Como é realizada a cirurgia?
A técnica mais difundida atualmente é a chamada “técnica da grande bolha” (big bubble technique), desenvolvida por Anwar e aperfeiçoada por Ramon Ghanem com o método Pachy-Bubble. Atualmente, a Peeling-off Technique, de Sarnicola, também tem sido utilizada.
O procedimento envolve:
- Uma trepanação parcial da córnea do paciente até aproximadamente 80% de profundidade;
- Injeção controlada de ar dentro do estroma corneano para separar as camadas anteriores da membrana de Descemet;
- Remoção cuidadosa do tecido doente exposto;
- Sutura de um botão de córnea doadora (previamente preparado, sem o endotélio) sobre o leito receptor.

Existem limitações?
A principal limitação é que o paciente deve ter endotélio saudável – se a doença também afetar essa camada, o transplante lamelar anterior não é indicado. Além disso, a técnica tem uma curva de aprendizado mais longa para o cirurgião, e existe o risco de perfuração acidental da membrana de Descemet durante o procedimento (caso em que pode ser necessária a conversão para um transplante de espessura total).
Perspectivas futuras
O transplante lamelar anterior, especialmente na modalidade DALK, já é considerado por muitos especialistas como o procedimento de escolha para doenças da córnea anterior, substituindo gradualmente o transplante tradicional. Com o avanço de tecnologias como o laser de femtossegundo e a OCT intraoperatória, a precisão do procedimento tende a aumentar, tornando-o mais acessível mesmo em centros menos especializados.
Por fim, pode-se afirmar que o transplante lamelar anterior é uma cirurgia que substitui apenas a parte doente da córnea, mantendo a camada saudável mais profunda. Isso significa menos risco de rejeição, maior durabilidade e um olho mais forte após a cirurgia. É uma excelente opção para quem tem ceratocone, cicatrizes profundas ou doenças hereditárias da córnea, desde que a camada mais interna (endotélio) esteja saudável.
Vamos cuidar disso juntos?
Com anos de experiência, meu foco é ajudar os pacientes a VEREM o mundo da melhor maneira possível por meio de tratamentos modernos e de acordo com cada particularidade. Vamos agendar uma consulta e entender como podemos cuidar da sua saúde?
Dra Terla Castro
Médica Oftalmologista
CRM 22717
RQE 13628
Especialista em Córnea, Cirurgia do Ceratocone, Cirurgia Refrativa, Cirurgia de Catarata, Implante de Lentes intraoculares e Lentes de Contato.
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